sábado, 3 de junho de 2017

Capítulo 9 - O Mistério do Viúvo Maldonha


Lívia caminhava pelo corredor da universidade indo em direção à sala de aula quando encontrou Roberto, que vinha em direção a ela. Ele deu-lhe um beijo no rosto e entregou-lhe um pequeno embrulho. Ela o recebeu.
— O que é isto? — perguntou.
— O meu pedido de desculpas — respondeu ele, em meio a um sorriso.
Duas colegas que estavam com Lívia se afastaram, cochichando algo uma para a outra. Lívia nem sequer reparou, entretida que estava abrindo o pacote.
— Obrigada! — agradeceu, segurando uma caixinha de um aparelho celular. — Não precisava!
— Precisava, sim — disse ele. — Na verdade, esse presente foi mais pra mim do que pra você. Agora quando eu quiser falar com você vai ser bem mais fácil. E vê se não o deixa se afogar na privada também.
— Sem graça! — disse ela, dando-lhe uma leve tapa no braço.
— Sou mesmo? — ironizou.
— É sim! — ela sorriu feliz. Aproximou-se dele e deu-lhe um beijo no rosto, sequenciado de um abraço. — Agora vamos pra sala, a aula já vai começar. E vê se para de graça, ouviu?
Roberto sorriu.
— Tá bom, parei — disse ele, rindo.
Em seguida, foram para a sala um ao lado do outro. Lívia olhava o aparelho, admirada.
— Obrigada! — agradeceu outra vez. — Obrigada mesmo!
Mais tarde, quando chegou a casa, Lívia estava louca para mostrar ao pai o presente que havia ganhado, mas Pedro foi deitar-se antes que ela chegasse, pensando ainda nos fragmentos do sonho que tivera. Pensava também nas coisas que Maldonha lhe disse sobre Deus. Antes, quando uma pessoa queria fazê-lo acreditar em Deus, era diferente; queriam que acreditasse porque era assim que havia de ser: um Ser que impõe aos Homens o que é certo e o que é errado para depois julgá-los. “Você tem que acreditar”, sua mãe sempre lhe dizia, e era semelhante quando algum religioso parava-o na rua para explicar-lhe contextos bíblicos; isso o fazia quase sempre perder a paciência. Não queria crer em um Deus por ter medo de ser castigado por Ele, pois não via fundamento nisso. Com Maldonha era diferente, pois parecia que o velho sabia expor sua opinião sem impô-la, o que era mais importante.
Você deveria acreditar, pensou e comparava essa frase à que sempre estava acostumado a ouvir: “Você tem que acreditar”. E deixava essa ideia vaguear na mente, ao mesmo tempo que tentava, sem êxito, lembrar-se de mais alguma cena do sonho. Chegou a se achar ridículo, mas era mais forte que ele, era quase incontrolável, e isso o deixava com raiva de si mesmo.
Tentou manter-se acordado até a filha voltar, mas não conseguiu. Quando começou a adormecer, os pensamentos pareciam assobiar-lhe na mente uma melodia monótona, cheia de trechos desafinados. Foi um sono ininterrupto e sem sonhos.
Na manhã seguinte, após o café, ainda na cozinha, Lívia mostrou ao pai o celular que ganhou de Roberto.
— O que esse rapaz está pretendendo? — perguntou Pedro, em tom de brincadeira. — Quais as intenções dele com a minha princesa?
Lívia ficou encabulada.
— Ai, pai! Ele é só meu amigo!
— Sei, só amigo? — ironizou Pedro, fingindo seriedade, mas mantendo um tom de brincadeira na voz.
Lívia abraçou o pai e deu-lhe um beijo estalado no rosto.
— Está com ciúme?
— Eu, ciúme?
Ambos riram e seguiram para a sala. Pedro ligou a tevê e sentou-se; Lívia sentou-se ao lado dele enquanto ligava para desbloquear o aparelho celular.
— Pelo menos vou economizar um pouco — brincou Pedro. — E cuidado pra não deixar esse também cair na privada — continuou ele, em tom de gozação, e riu da cara de reprovação que a filha fez com o gracejo dele.
— Cheio de graça, né? — retrucou ela, fazendo uma careta sutil. — Até você vai me zoar agora?
Balançando a cabeça, Pedro sorriu e levantou-se.
— Vou dar um pulinho na minha marcenaria — disse ele, desligando a tevê.
— Você tem encomenda pra fazer?
— Não — respondeu ele, já próximo à porta de saída. — Há tanto tempo que não faço nada lá, então vou aproveitar as férias pra não perder a prática.
— E vai fazer o quê? Já sabe? — perguntou ela, com o aparelho celular ao ouvido, esperando ser atendida.
— Um rack novo pra sala, o que acha?
— Legal! Mas esse ainda está novo.
— Eu sei, mas vou tentar fazer um que vi numa revista. Vou lá, ouviu?
— Tá bom, pai. Qualquer coisa me chama.
Pedro saiu. A marcenaria ficava no quintal de sua casa, num quartinho ao lado da garagem. Durante o trabalho, tentava concentrar-se ao máximo, mas estava inquieto; precisava conversar com alguém sobre Maldonha e o que ele lhe havia contado.
Na hora do almoço, Lívia reparou que o pai estava estranho, como se quisesse dizer algo, mas não sabia como. Também falar sobre algo que a filha sabia que ele não gostava era um tanto paradoxal. Portanto, Pedro não sabia se deveria dar início à conversa.
— Lívia — ele resolveu manifestar-se, enquanto arrumava os talheres no canto do prato —, eu nunca lhe perguntei o que você acha de Deus… Nunca conversamos sobre isso e…
— Por que está falando disso? — interrompeu Lívia, admirada. — Ontem você falou de um sonho; hoje… de Deus. O que está acontecendo com você?
Lívia agiu exatamente como Pedro imaginou que ela agiria. Isso o fez ficar em silêncio por alguns instantes, pensando se deveria insistir na conversa. Lívia aguardava uma resposta. O interesse súbito do pai por assuntos que não lhe agradavam deixou-a curiosa. Por um instante, lembrou-se de quando era pequena, e a mãe a matriculou no catecismo. No começo, o pai foi contra, alegava que a filha é quem deveria escolher no que deveria acreditar e não ser induzida a crer. Lívia lembrou-se vagamente de que naquele dia os pais haviam discutido por sua causa e, de certa forma, achou que a culpa era de Deus. Era por causa de Deus que eles estavam discutindo, ela pensava. A partir daí, recusou-se a ir ao catecismo, mas a mãe obrigou-a a ir, mesmo contra a vontade de Pedro. Demorou um bom tempo até Lívia aceitar o fato de estar todos os sábados pela manhã na igreja, mas o tempo a fez gostar disso, principalmente quando começou a ter conhecimento da vida de Jesus Cristo. Na época, ela estava com oito anos e, talvez, por uma coincidência irônica, quando tinha dúvida sobre algo que a catequista ensinava, não era a mãe que procurava, era o pai, e Pedro explicava tudo com indulgência de pai, mas apenas sobre o que sabia. Quando não sabia a resposta para as perguntas da filha, pedia a ela que anotasse a dúvida e perguntasse à catequista, e era isso que ela fazia.
— Hein, pai? — insistiu Lívia, ao perceber que o pai parecia não querer continuar o assunto. — Por que você está com esses papos agora? A última vez que vi você falar sobre Deus, eu ainda era criança, e só falava d’Ele quando eu lhe perguntava alguma coisa das aulas de catecismo.
Pedro engoliu em seco.
— Eu não sei o que está acontecendo. É estranho… Eu… eu sinto que tenho que falar sobre isso com alguém, mas não sei por quê. Tudo começou quando o Maldonha contou uma história esquisita pra nós, lá no Texas.
— Que história? — Lívia mostrou-se interessada.
— Você quer mesmo saber?
— Claro que quero! E por que não…?
— É uma história sem pé nem cabeça. É a história de um rapaz que vivia dizendo que não tinha medo do Diabo, que com o Diabo dançaria uma valsa…
— Ai credo! Que coisa mórbida!
—… e disse tanto isso, que no dia do casamento dele, sua noiva disse que seria uma honra dançar uma valsa com ele, pois durante muito tempo ele lhe havia oferecido essa dança.
— Como assim?! — Lívia estava chocada. — A noiva dele era… era o Diabo?
Pedro hesitou por um instante, mexendo a comida com os talheres.
— Eu não sei, mas pelo que Maldonha disse, deu a entender que sim. Eu não sei por que, mas essa história ficou na minha cabeça.
— Quando ele contou?
— Sexta-feira passada.
— É só uma história, pai.
— O mais engraçado é que ele contou como se tivesse acontecido, ou até mesmo presenciado tudo… Se todos acham que ele é esquisito, estranho, é porque não o viram contar essa história. Ele parecia… parecia um… — Pedro tentava achar um termo para classificar Maldonha. — Eu não sei explicar. Você precisava ver.
Lívia bebeu um gole de refrigerante. A comida estava no prato, intocada. O interesse pelo que o pai dizia parecia ter muito mais sabor que o arroz feito no forno que ela havia preparado.
— Eu imagino — disse ela —, se já é estranho olhar pra ele quando ele está quieto, imagine contando essa história!
— Você sabe, não é, Lívia, que eu não acredito nessas coisas…
— Sim, sei.
—… e que Deus e o Diabo, pra mim, não existem, mas eu estou sentindo algo estranho em relação a isso. Eu não sei se foi por causa da história que o Maldonha contou ou… Olhe, eu sempre gostei das histórias bíblicas, mas, em minha opinião, a maioria delas não passa de história. Jesus, o filho de Deus, concebido por uma virgem — disse a última frase em tom sarcástico, olhos arregalados e testa franzida. — Eu não sei, mas essa virgem pode ter cometido adultério e como adultério era um pecado mortal, ela inventou essa história, e Jesus cresceu com isso na cabeça e já viu…
— Ai, pai — Lívia estava incrédula —, como você distorce as Escrituras Sagradas!
— Lívia, eu já li muita coisa da Bíblia. Há muita coisa interessante, mas foi escrita por homens e traduzida por outros homens… e outros, e quem é que sabe quantas vírgulas não foram esquecidas ou acrescentadas sem querer ou… ou o que é pior: de propósito?
— Mas foram escritas por homens escolhidos por Deus — alertou Lívia, tentando impor sua fé.
— E foram encontradas muitos anos depois por homens que não eram escolhidos por esse tal Deus, e traduzidas por outros que, talvez, nem acreditassem nesse Deus, e muitas passagens dela devem ter sido mudadas por interesse político dos homens… — à medida que falava, Pedro aumentava o tom de voz. — E quanto à canonização dessas escrituras?… E as cópias das cópias das cópias? E os apócrifos?! Será que não foram escritos por esses homens de Deus?!
— Pai, o que deu em você? — Lívia estava assustada.
Pedro passou as mãos no rosto; depois as uniu com os dedos cruzados, apoiou os cotovelos sobre a mesa e descansou a cabeça nos punhos. Parou de falar por um instante e passou a refletir; percebeu que estava discutindo com a filha, e por causa de um assunto de que não gostava.
Isso é um absurdo, pensou ele ao levantar-se.
— Lívia, desculpe — disse, voz embargada. — Me desculpe!
— Você não vai comer?
Pedro encostou a cadeira contra a mesa.
— Estou sem fome — disse, sem olhar para a filha. — Desculpe!
Lívia nada mais disse. Pedro voltou à marcenaria, mas sabia que seria difícil se concentrar no trabalho. Não havia imaginado que quando abrisse a boca para falar com a filha, a conversa chegaria a esse ponto. Nem sequer pensou que falaria com ela daquela forma para defender os seus conceitos ateus. Em momento algum lhe passou pela cabeça a cena decorrida. Arrependeu-se, portanto, de ter iniciado a conversa.
Voltou ao trabalho tentando esquecer tudo o que aconteceu no almoço. Pensou que não conseguiria trabalhar, mas estava enganado; embora a cabeça estivesse repleta do ocorrido e de qualquer coisa que não sabia bem o que era, seu trabalho evoluiu satisfatoriamente.
Por volta das três e meia da tarde, Lívia preparou um lanche, encheu um copo com refrigerante e levou-os para o pai. Achou que ele pudesse estar com fome, e estava certa. Pedro parou o serviço para comer o misto quente feito pela filha, que se sentou em um banco próximo à porta.
Quando terminou de comer, ele agradeceu a gentileza da filha. Estava ainda envergonhado, mas sabia que isso era passageiro.
— Você está mais calmo? — perguntou ela, recebendo a bandeja e o copo de refrigerante vazios.
— É melhor a gente esquecer isso — pediu ele. — Eu nunca gostei de conversar sobre essas coisas com outras pessoas porque sempre soube que acabam da maneira que acabou entre nós…
— Pai, não é sempre assim…
— Olhe, Lívia — interrompeu-a —, eu nunca desrespeitei a crença de ninguém, mas hoje acho que exagerei — fez uma pausa, deu as costas e pegou um lápis sobre um banco. — Eu queria esquecer isso tudo. Não sei o que me deu de ter inventado aquela conversa.
Lívia concordou, balançando a cabeça. Sabia que de nada adiantaria insistir.
— Tudo bem, pai! Se você prefere assim…
Olhando para a filha, Pedro meneou a cabeça de modo afirmativo.
Ficaram em silêncio por um instante. Ela estava de pé, junto à porta; segurava a bandeja com uma mão e o copo com a outra. Ele riscava uma tábua que estava sobre a mesa. Fazia isso e ficava um tempo olhando o que fizera.
— Como está indo o novo rack? — perguntou ela.
— Mais ou menos.
— O que há de errado?
— Eu estou esperando chegar o material que comprei… — disse, referindo-se ao material que havia encomendado por telefone no dia anterior. — Era pra ter chegado pela manhã e até agora… nada.
Lívia disse qualquer coisa concordando com o pai e voltou para dentro de casa.
Minutos depois, o material de que Pedro falara, chegou. Eram algumas madeiras que ele mesmo ajudou a descarregar da caminhonete.
À noite, Lívia foi à faculdade. Pedro se ofereceu para levá-la, mas ela recusou. Ele ainda pensava no ocorrido na hora do almoço, porém tentava ignorar a lembrança, e o fazia de tal maneira que ela parecia ter ocorrido havia muito tempo. Nesse momento, estava sentado no sofá, olhando um álbum de fotografias antigas que pegou de dentro do rack. Sentiu-se triste ao olhar as fotos de seu casamento. Achou que estava sendo acometido daquilo que chamam nostalgia. Por um momento, analisou a vida que estava levando depois do divórcio e a comparou à que levava antes quando chegava a casa e a esposa o esperava para o jantar. Eram duas vidas distintas, separadas por três anos e meio e um prato a menos na mesa. Sentiu-se por um instante um estrangeiro em um país distante, sem saber falar o idioma local, mas, ao lembrar-se de que a filha era o maior bem que tinha na vida, sentiu-se novamente em casa. E por tê-la ao seu lado, agradeceria a Deus, se acreditasse n’Ele. Em seguida, depois de olhar a última fotografia, fechou o álbum sobre o colo e ficou pensativo, reflexivo. A seguir, levantou-se e guardou-o no local de antes.


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